Infinitivos

Compreender os vacilos de Deus sobre a terra imensa.

Aceitar o sorriso indesejado

e o sorriso trocado.

Infringir as regras do óbvio

para virar poesia


Por as estrelas no colo e os erros no bolso

Escutar

o eco do outro

através do espelho

Permanecer

com os braços abertos

com os corpos grudados

Dormir

de um século pro outro

e acordar.

Nosso laço, nosso abraço

Nunca tinha reparado:

PRONTO:


está dado o laço.
Como é curioso um laço...
Um fita dando voltas que se enrosca...
Mas não se embola.
Vira, revira, circula e...

Assim como um abraço:
coração com coração.
Tudo isso cercado de muito braço.





É assim que é o laço:
Um abraço no presente...
No cabelo...
No vestido...
Em qualquer coisa que faço.

E quando puxo uma ponta, o que é que acontece?
Vai escorregando... devagarzinho...desmancha...desfaz o abraço

Solta o presente, o cabelo...
E na fita que curioso: não faltou nenhum pedaço.

Ah! Então é assim o amor, a amizade.
Tudo o que é sentimento?
Como um pedaço de fita?

Enrosca, segura um pouquinho, mas pode desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas pontas do laço.

Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade...

E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços...

E saem as duas partes, igual a dois pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.

Assim é o amor...

Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca, pois quando vira nó, já deixou de ser laço.


Saramago


I believe that we can be extraordinary together rather than ordinary apart and i want to be.. [yours.]

do último livro...

"se tens um coração de ferro,
bom proveito. O meu,
fizeram-no de carne,
e sangra todo dia."
José Saramago

Quatro Estações



Maurício Gaetani, Ari Sperling e Cláudio Rabello




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Mãos: Para que são?

Há mãos que sustentam e mãos que abalam.
Mãos que limitam e mãos que ampliam.
Mãos que denunciam e mãos que escondem os denunciados.
Mãos que se abrem e mãos que se fecham.
Há mãos que afagam e mãos que agridem.
Mãos que ferem e mãos que cuidam das feridas.
Mãos que destroem e mãos que edificam.
Mãos que batem e mãos que recebem as pancadas por outros.
Há mãos que apontam e guiam e mãos que descem.
Mãos que são temidas e mãos que são desejadas e queridas.
Mãos que dão com arrogância e mãos que se escondem ao dar.
Mãos que escandalizam e mãos que apagam os escândalos.
Mãos puras e mãos que carregam censuras.
Há mãos que escrevem para promover e mãos que escrevem para ferir.
Mãos que pesam e mãos que aliviam.
Mãos que operam e que curam e mãos que “amarguram”.
Há mãos que se apertam por amizade e mãos que se empurram por ódio.
Mãos furtivas que traficam destruição e mãos amigas que desviam da ruína.
Mãos finas que provam dor e mãos rudes que espalham amor.
Há mãos que se levantam pela verdade e mãos que encarnam a falsidade.
Mãos que oram e imploram e mãos que “devoram”.
É a mente agradecida que transforma as mãos em instrumentos de graça.
Mãos que se levantam para abençoar, mãos que baixam para levantar o caído, mãos que se estendem para amparar o cansado.
Existem mãos... e mãos.
As tuas, quais são?
De quem são?
Para que são?

Felicidades a todos

Aos casados há muito tempo aos que não casaram, aos que vão casar, aos que acabaram de casar, aos que pensam em se separar, …aos que acabaram de se separar, aos que pensam em voltar…

Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga. Tudo o que todos querem é amar.

Encontrar alguém que faça bater forte o coração e justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata.

Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado.
Tem algum médico aí???

Depois que acaba esta paixão retumbante, sobra o que?

O amor.

Mas não o amor mistificado, que muitos julgam ter o poder de fazer levitar.

O que sobra é o amor que todos conhecemos, o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filho. É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo.

Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja.

O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.

A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta. Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar uma relação que poderia ser eterna. Casaram. Te amo prá lá, te amo prá cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas. Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, respeito. Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência… Amor, só, não basta.

Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.

Tem que saber levar. Amar, só, é pouco. Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar. Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. Não adianta, apenas, amar.

Entre casais que se unem visando à longevidade do matrimônio tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um. Tem que haver confiança. Uma certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar, ’sozinho’, não basta.

Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia, falta discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado. O amor é grande mas não é dois. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência.

O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.

Um bom amor aos que já têm!

Um bom encontro aos que procuram!

E felicidades a todos nós...

What if God was one of Us





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Alfabeto

Uma das primeiras coisas que eu aprendi foi o alfabeto, depois me preocupei com os números. Sempre preferi as palavras aos cálculos. A gente costuma preferir aquilo que sabe fazer melhor, ou pelo menos o que mais gosta, o que mais entende, o que mais consegue. Talvez, por isso prefiro você. Certamente, é por isso que eu ainda prefiro digitar sentimentos, amar e sonhar, nesse sonho esforçado de fazer a vida rimar com coisas boas. Nessa tarefa diária me é útil o alfabeto. Aquelas 20 e poucas letras, que juntas formam palavras, que juntas formam frases, que juntas formam textos, textos que dão vida aos sentimentos que eu sinto. Mas em tudo eu tenho algum preferido, escolho aquilo que eu gosto mais. Com o alfabeto não podia ser diferente. Há algum tempo uma das letras se tornou a minha preferida e, confesso, nem foi preciso muito esforço para ela ocupar a primeira posição, em um ranking não disputado que eu mesmo criei. Uso essa letra a todo momento, por tudo que ela significa, por tudo que ela me lembra.



E não há como esquecê-la, se ela é meu amor vogal e consoante, que eu levo a todo instante quando quero te escrever. Ainda assim, eu paro, penso e sento, eu que nem preciso do assento para essa letra me lembrar você. Você, que começa e termina nessa mesma letra, dispensa qualquer retoque ou retórica para ter minhas palavras. Como pode uma letra ser tão amada? Letra que me traz cada texto, cada verso, cada dia. Nem preciso das outras letras, só com a sua eu escreveria minha melhor poesia, pois eu sei que só você me basta. Ainda que eu te deseje sempre mais. Mesmo que eu repetisse sempre a sua letra, ainda assim me entenderiam. Para quem sabe ler, um pingo é letra, e, para quem sabe amar, tua letra é uma certeza. Esse é meu jeito, esse é meu amor, esse é meu alfabeto. E o meu alfabeto, mesmo só tendo a sua letra, nunca deixa de ser completo.


Importado do Blog Olhares Imperfeitos
Publicado originalmente em 26 de setembro de 2008